Um canto para leitura e reflexão

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DISCIPULADO É ENSINAR

No Evangelho de Marcos, capítulo 9, versículos trinta e trinta e um lemos: “Depois, tendo partido dali, passavam pela Galileia, e ele não queria que ninguém o soubesse; porque ensinava a seus discípulos, e lhes dizia: o Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, que o matarão; e morto ele, depois de três dias ressurgirá”. Por este registro entendemos que Jesus evitava as multidões porque desejava ensinar mais amiúde seus discípulos. Esta prática de ensinar os discípulos em particular foi uma constante no ministério de Jesus (Mt 17.19; 24.3; Mc 4.34; 13.3; Lc 10.23).

Discipulado é ensinar. Mas, ensinar o que? No texto de Marcos 9.31 vemos que Jesus ensinava o cerne do evangelho: morte e ressurreição do cordeiro de Deus. No sermão do monte Ele fez uma releitura da lei e ensinou como um discípulo seu deve viver e ser.

Quando ensinamos, precisamos pensar no que queremos com o ensino. Não apenas uma questão de o que ensinar, mas o objetivo do ensino. Ensinar implicar em objetivar mudanças. As mudanças podem ser de três formas: cognitivas, psicomotoras e afetivas. Mesmo no aspecto cognitivo devemos esperar mudanças que sejam além do mero saber, memorizar e repetir. É preciso que o aprendiz seja capaz de refletir, interpretar e expressar. Mas, no discipulado, isto não será suficiente, pois o ensino precisa causar mudanças nas habilidades e no ser. O ensino no discipulado deve resultar não só em um homem de melhor conhecimento, mas em um melhor homem, o tipo de homem que Deus quer (Jo.15.14, 14.15, 15.7).

Há um alvo supremo no discipulado, que só alcançaremos na glória, mas que devemos buscar a todo instante: “até que todos cheguemos… ao pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.13). E isto se realiza na relação discipulador discípulo em que os dois são aperfeiçoados (EF 4.12) pela aplicação da Palavra de Deus através da ação do Espírito Santo. Quando Paulo usa a expressão “aperfeiçoamento dos santos” está implícito um processo artesanal e contínuo de colocar o discípulo em forma.

Paulo diz que se afadigava nesta tarefa (Cl 1.29). A palavra aqui tem o sentido de trabalho corporal exaustivo. Paulo estava na prisão em Roma, aguardando o juízo de Nero, e quase certo (como de fato o foi) de sua condenação e morte. Ele sofria naquela situação, vendo a igreja enfrentando ensinos heréticos. Sua agonia era em oração e ao mesmo tempo de não poder estar presente com os irmãos para orientá-los. Mas, ele diz que se valia de várias formas de ensino, para que homens perfeitos em Cristo fossem formados: “o qual nós anunciamos, admoestando a todo homem, e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito em Cristo” (Cl 1.28).

Para Paulo o propósito de seu ensino no discipulado era claramente estabelecido: “Ora, assim como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele RADICADOS E EDIFICADOS, E CONFIRMADOS NA FÉ, tal como fostes instruídos, CRESCENDO EM AÇÕES DE GRAÇAS” (Cl 2.6,7). Três metáforas definem seu propósito: RADICADOS – é a figura da floresta. É a palavra empregada para a árvore que tem suas raízes profundas na terra, de onde se sustenta e tira seus nutrientes; EDIFICADOS – é a figura da construção civil. É a palavra empregada para o edifício levantado sobre um alicerce seguro. CONFIRMADOS – é a figura jurídica. É a palavra que vem do contrato assinado, ratificado e tornado obrigatório.

Como discipulador almejo ver os discípulos do Senhor, que cuido, RADICADOS EM CRISTO. Cristo sendo o seu sustento, mas também o seu alimento. Cristo sendo o seu “pão da vida”, mas também a sua “água da vida”. Busco que Cristo seja o seu alicerce, a sua fundação. Meu alvo é que meu discipulando, passando por qualquer situação, o faça sem cair, porque está firmado no Senhor, na rocha.

Pr Gilvan Barbosa Sobrinho

CAMINHANDO JUNTOS

A expressão “caminhando juntos” encontra-se em Gênesis 22.6 e refere-se à caminhada de Abraão com seu filho Isaque rumo ao monte Moriá, aonde Isaque seria oferecido a Deus em sacrifício. Claro que o sacrifício não se concretizou, pois Deus apenas estava pondo a fé e a fidelidade de Abraão à prova.

Não se pode deixar de notar que no memento mais difícil para Abraão, em que ofereceria seu filho, seu único filho a quem amava (Gn 22.2), ele tenha andado junto a ele. O momento era igualmente difícil para Isaque, as dúvidas lhe atormentavam. Ali estavam a lenha, o cutelo e o fogo, mas cadê o cordeiro (Gn 22.7)? No momento da dúvida, da incerteza, da insegurança, caminhar ao lado do pai era alentador. Como escreveu o profeta: “um ao outro ajudou e ao seu companheiro disse: esforça-te” (Is 41.6).

Discipulado é isto: caminhar juntos! Andar lado a lado nos momentos de alegria e tristeza. Dividir pensamentos, crenças e vida. A frase mais usada em casamentos nada tem a ver com o rito, foi dita por uma nora a uma sogra, no momento de inteiro abandono desta: “Não me instes a que te abandone e deixe de seguir-te. Porque aonde quer que tu fores, irei eu; e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus” (Rt 1.16). Não há verdade mais completa no labor discipular do que esta expressa por Rute a Noemi.

Robert E. Coleman, em seu livro “O Plano Mestre de Evangelismo”, afirma que a estratégia de Jesus no discipulado incluiu “selecionar” doze e andar com eles, o que denominou de “associação”. Estar com os discípulos era o princípio central do discipulado de Jesus. “Ele era sua própria escola e seu próprio currículo” (p. 39). Ele os selecionou “…para estarem com ele e para os enviar a pregar” (Mc. 3.14). Andar com Jesus, estar com Ele, conviver com Ele era preponderante na formação do caráter dos discípulos. Mais que “dizer a” eles, “fazer com” eles, era a estratégia.

Falhamos demasiado no processo de discipulado porque nos concentramos mais no “dizer a” do que no “fazer com”. Transformamos o discipulado em um curso de estudo bíblico. O resultado? Homens e mulheres que sabem muito do Cristianismo, mas vivem longe do Cristo. Respondem questões de conhecimento bíblico, mas não sabem como este conhecimento se aplica ao dia-a-dia da vida. Homens que seriam aprovados com nota máxima em uma seleção de conhecimento bíblico, mas que seriam reprovados como cristãos por seus familiares, vizinhos e colegas de trabalho.

O que fazer? Largar o papel e caminhar com o discipulando. Como Abraão, caminhar juntos. Como Rute, não abrir mão do outro e comungar a caminhada, a família, a fé e o Deus que seguimos e cremos.

Entenda que o mundo virtual, as redes sociais são importantes, mas não há discipulado virtual. Discipulado é vida na vida, é caminhar juntos, partilhar princípios de vida e visão de mundo.

Os discípulos de Jesus lhe pediram: “ensina-nos a orar” (Lc 11.1). Por quê? Porque viram sua vida de oração. Eles também imploraram: “aumenta-nos a fé” (Lc 17.5). Por quê? Porque o viram exercer a fé e transformar pessoas e situações. No trabalho de discipulado devemos esperar que aqueles que discipulamos para Jesus nos peçam coisas semelhantes. Paulo não esperou que os coríntios lhe pedissem, ele mesmo disse: “sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo” (I Co 11.1). Que os que discipulamos olhem para nós e vejam os valores espirituais que temos e os desejem ter também!

Pr Gilvan Barbosa Sobrinho

DISCIPULAR É ENSINAR A AMAR

Talvez você esteja a se perguntar: é possível ensinar a amar? Amor se ensina? Difícil pergunta. Mas, se você é liderado pelo pensamento desta geração, que entende amor como sentimento, que facilmente fala em “fazer amor”, referindo-se à relação sexual, com certeza achará a pergunta fácil e, talvez, sem sentido.

O amor bíblico é mais que sentimento. Ele é um compromisso em favor do outro. Ele se origina em Deus (I Jo 4.7,8). Ele é o identificativo do cristão: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.35). Quando alguém encontra outra pessoa que ama com o amor de Deus, logo identifica um cristão.

Como podemos, então, ensinar alguém a amar? E como isto é discipulado?

Um discípulo não é apenas um salvo. Um discípulo não é apenas um membro de igreja. Um discípulo é alguém semelhante a seu mestre. “O Cristo em vós” (Cl 1.27) ou o “até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4.19) diz de um trabalho de discipulado, uma caminhada com Cristo, em que Ele vai nos moldando à sua imagem. Este é um trabalho do Espírito Santo, o de formar em nós o caráter de Cristo. Discipulado é investir em uma vida até que ela seja semelhante à vida de Cristo. O amor em nossa forma de viver e agir será o identificativo de Cristo em nós.

Ensinamos alguém a amar quando convivemos com esta pessoa e ela ver nossa forma de amar. Só ensina a amar quem ama. Quem não ama não pode ensinar a amar. O discipulado só se torna real quando o discipulador puder dizer: “sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo” (I Co 11.1). Quem está sendo discipulado precisa encontrar na vida do discipulador o mesmo amor que moveu nosso salvador a ir à cruz.

Na relação de discipulado com os Gálatas Paulo queria que entendessem que sua dureza em apontar o perigo não era falta de amor, pelo contrário. Ele escreveu: “Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós; eu bem quisera estar presente convosco agora, e mudar o tom da minha voz; porque estou perplexo a vosso respeito” (Gl 4.19,20). Ele os chama de filhinhos e diz que gostaria muito de poder mudar o tom da voz, para eles perceberem o tamanho amor que lhes tinha. A mesma demonstração de amor vemos na relação discipuladora com Epafrodito: “Epafrodito, meu irmão, e cooperador, e companheiro nas lutas, e vosso enviado para me socorrer nas minhas necessidades; porquanto ele tinha saudades de vós todos, e estava angustiado por terdes ouvido que estivera doente (Fp 2.25,26). O amor demonstrado pelo apóstolo se reproduziu na vida de Epafrodito.

Outra forma de ensinar o discípulo a amar é colocá-lo em constante comunhão com Deus. A Bíblia diz que “Deus é amor” (I Jo 4.8). Mais: o amor só é possível em nossas vidas, porque Deus o planta em nós: “amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus” (I Jo 4.7). Na convivência com o Senhor vemos como o seu amor é largo, alto, comprido e profundo, como excede a todo o entendimento humano (Ef 3.18,19), e, então, somos constrangidos a amar (II Co 5.14). Como escreveu João: “Amados, se Deus assim nos amou, nós também devemos amar-nos uns aos outros” (I Jo 4.11). Amamos em consequência de seu amor por nós.

Discipule! Ame! Ensine a amar!

Pr Gilvan Barbosa Sobrinho

NÃO PENSE EM MULTIDÃO, PENSE EM UM

Claro que o meu desejo, o meu esforço para “discipular um” está diretamente ligado à minha convivência, à minha intimidade com Jesus. Quando olhamos, por exemplo, o texto de João 1.35-51 e percebemos a determinação de André em levar seu irmão Pedro a Jesus. Salta-nos aos olhos o destaque do verso 39, que diz que isto foi fruto de ter ele “passado o dia com Jesus”. Conviver com Jesus, passar tempo com Jesus é a mola propulsora de uma vida discipuladora. Muitos são frios em compartilhar o evangelho da salvação e mais frios ainda em cuidar de vidas para Cristo, porque convivem pouco com Jesus através da leitura da Bíblia e da oração. Não podemos compartilhar Jesus, se não o conhecemos. Conhecer implica em conviver. Ninguém conhece sem conviver.

O registro de Marcos do propósito de Jesus ao escolher os doze, não deixa dúvidas sobre a importância da convivência, da intimidade com Jesus: “Então designou doze para que estivessem com ele, e os mandasse a pregar” (Mc 3.14). Perceba que a convivência (“estivessem com ele”) precede a pregação (“os mandasse a pregar”). O ser precede o fazer. O que eu faço é resultado do que sou com Jesus; o que faço não me tornará alguém especial ou íntimo de Jesus, mas a intimidade com Jesus determinará o que faço e farei.

Vemos em Barnabé um bom exemplo deste princípio. Ele vendeu um campo e trouxe o valor da venda como oferta, para que a igreja pudesse cuidar dos que estavam chegando (At 4.36,37). Afinal, a igreja que começou com “cerca de cento e vinte membros” (At 1.15), chegou em pouco tempo a “quase cinco mil” (At 4.4). Como cuidar de tanta gente? Como aumentar o orçamento da igreja de forma tão rápida para responder às necessidades? Barnabé não esperou que outros fizessem algo, ele se sentiu responsável pela situação e lançou mão do que era seu para abençoar toda a igreja.

Quando pensamos na pregação do evangelho, geralmente, pensamos em alcançar multidões. Olhando o as páginas do Novo Testamento percebemos que o foco não são multidões, mas um, um discípulo. Quando fazemos de alguém um discípulo de Cristo, ele fará outro, então uma corrente de multiplicação se estabelece. A multidão alcançada é resultado do discipulado de um. Multiplicação é resultado, não foco. Foi este o pensamento de Paulo expresso a Timóteo: “e o que de mim ouviste de muitas testemunhas, transmite-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros” (II Tm 2.2). Waylon Moore diz: “ganhar uma alma, edificar-lhe a vida em Cristo, acompanhá-la com doutrinamento até que a mesma possa ganhar outra alma, ensiná-la e treiná-la para também frutificar, Isto é multiplicação” (ISNT, p. 47). Nosso desafio, portanto, deve ser “eu+1”, não “eu+multidão”.

O Barnabé, que revela liberalidade financeira, é o mesmo que coloca-se ao lado de Paulo para apresenta-lo à igreja (At 4.36,37; 9.27), e o também quem vai em busca de Paulo em Tarso e o discipula por um ano, enquanto fica com ele na liderança da igreja em Antioquia (At 11.26). Sem o discipulado de Barnabé não teríamos Paulo, nem Timóteo, nem a maioria das igrejas que conhecemos nas páginas do Novo Testamento. O processo é sempre longo, mas vale a pena. Invista sua vida em outra vida. Comece a discipular alguém.

Pr Gilvan Barbosa Sobrinho

Depoimento: mantendo o foco missionário

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Há muitos motivos para a perda do foco missionário da igreja hodierna, mas o principal é a perda do sentido de ser igreja. Neste mundo pós-moderno, mundo da busca da felicidade, do entretenimento desenfreado, a igreja adaptou-se. Perdeu o sentido de “um grupo em missão” para “um grupo em reunião”. Com isto entramos na igreja da “rede”, que existe virtualmente, como muito da vida moderna. Comunicamo-nos por e-mail, redes sociais, mas não convivemos, não dividimos dores, alegrias e sonhos. Passamos a ser estranhos que dizem se conhecer e que se intitulam de irmãos. Quando Jesus fundou sua igreja, Ele o fez para que ela fosse para a Sua glória e esta glória retratada no exercício de uma missão, e esta iniciada por Ele. Somos um povo em missão, e esta é resgatar das trevas e trazer para a luz, aqueles que Deus amou e ama.

Claro que, no mundo de relativismo que vivemos, os conceitos vão também se perdendo, se relativizando. Assim como o conceito de igreja diluiu-se, também o de missões. Só para ilustrar o que estou tentando dizer: ganhamos uma Van para a obra missionária. Estabelecemos como critério básico de uso deste veículo a regra de que ele servirá a obra missionária. Recebemos o telefonema de um líder de um grupo musical solicitando que lhe cedêssemos a Van para o lançamento do CD do grupo em um estado vizinho ao nosso, e a justificativa para o pedido é que isso era missões. Em nosso conceito isto não é missões, pode ser algo acessório, mas não é missões. É incrível como tanta coisa hoje se denomina “missões” e não tem como foco principal partilhar as Boas-Novas da salvação em Cristo!

Entendo que este foco foi perdido quando perdemos o conceito de igreja e de missões. Com isto passamos a pensar mais em nós mesmos, no grupo que se diz igreja, do que naqueles que não são parte do aprisco do Senhor. A maior parte dos recursos financeiros arrecadados pelas igrejas de Cristo está sendo investida no conforto e bem estar das “ovelhas que estão no aprisco”. Por quê? Porque o conceito de igreja voltou-se para dentro e o de missões perdeu o sentido de ir. Preferimos investir milhões em mega templos, onde se reúnem milhares que não se conhecem, que não sabem por que ou para que estão ali, do que pensar nas ovelhas desgarradas, que vagam como quem não tem pastor (de fato não têm).

A parábola do “bom” samaritano nunca foi tão verdadeira! Estamos mais preocupados em não nos contaminarmos do que em estender a mão. Estender a mão e envolver-se com o outro dá trabalho, implica em parar a agenda e meter a mão no bolso para arcar com despesas não orçadas e que não são minhas, nem da minha família. A igreja virtual ou a mega igreja finge resolver este problema, pois me leva a fingir que contribuo, que me importo, mas de fato não envolve meu coração, nem minha alma. É um “me dou à distância”.

Estas perguntas de “como” sempre passam a ideia de que algo se resolve com tantos passos, como algo simples. Este não é um quadro simples de ser revertido, se é que é possível. Mas, creio que podemos começar uma nova caminhada investindo corretamente naqueles que lideram e hão de liderar as igrejas. Estamos formando mais homens do discurso do que das ruas. Estamos fazendo mais homens de comando do que servos. Lemos e discutimos muito sobre líderes servos, mas na prática eles são raros. Como escreveu Waylon Moore “a igreja é o que é seu pastor”, erramos na formação e multiplicamos o erro na visão do ser igreja. Pastores do discurso erguem igrejas do discurso. Pastores das ruas, dos “becos e valados”, erguerão igrejas das ruas, dos “becos e valados”.

Urge também investir em treinamento de liderança, leigos que saibam cuidar e proclamar. Enquanto elitizamos o evangelho, deixando que seja produto de uma classe intelectualizada, a Reforma buscou fazer “o evangelho do povo”. Leigos pregando, evangelizando, partilhando a salvação é a igreja cumprindo seu papel como projetado pelo Senhor.

Precisamos deixar o foco do Velho Testamento, o templo e o sacerdote, para vivenciarmos o foco do Novo testamento, “Cristo em todos”. Cada crente um ministro, cada lar uma igreja.

Estou como pastor da Primeira Igreja Batista em Teresina há cinco anos. Quando chegamos, a igreja havia saído de uma grande divisão. Precisávamos decidir o rumo, o foco a ser seguido. Com tantas necessidades, esta não era uma decisão fácil. Como eu havia escrito uma carta à igreja, antes de aceitar o convite, dizendo de minha visão pessoal de pastor e de igreja, e esta carta foi votada em assembleia, facilitou a definição de nosso foco. “Ser uma igreja agradecida, vibrante e missionária” foi nossa definição de visão. Em um Estado, à época, com 86 cidades sem a presença Batista, sendo o menos evangélico do Brasil, priorizamos abrir igrejas nas cidades sem a presença Batista. A maioria absoluta destas cidades tem menos de cinco mil habitantes e menos de 5% de evangélicos.

Com a definição do foco, passamos a orar e esperar de Deus a indicação para onde iríamos, pois não definimos a área do Estado para nossa atuação. Só para você ter uma ideia, temos uma congregação no extremo sul do Estado, a 703 km de Teresina, e outra a 284 km, no norte do Estado. A última congregação que abrimos, esta a 284 quilômetros de Teresina, foi iniciada em parceria com uma igreja do Maranhão, em setembro do ano passado. Iniciamos aquela congregação, porque recebemos o telefonema da liderança da igreja dizendo que eles tinham uma obreira em formação, que precisava da experiência prática de liderar um trabalho, e eles estavam dispostos a pagar o aluguel de uma casa para início de uma congregação. Perguntaram se aceitávamos cuidar da congregação. Respondemos que sim, desde que fosse dentro do perfil que temos seguido: uma cidade sem a presença Batista. Eles aceitaram. Passamos o desafio a um missionário nosso, que dirige uma congregação naquela região, a 93 Km da cidade alvo. Tudo acertado, alugamos a casa onde a obreira residiria e funcionaria a congregação, marcamos a data de início, levamos uma equipe para um impacto… ali está a congregação com três membros (estes foram ganhos e batizados) e cerca de quinze congregados.

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Cada congregação iniciada tem uma história da ação de Deus. Não estamos indo a uma cidade por causa de crentes de outras igrejas ou porque alguém de nossa igreja mudou-se e não queremos perdê-lo para a igreja da cidade. Estamos indo às cidades sem a presença batista para ganhar pessoas que estão sem Cristo. O plano é simples: oramos, esperamos Deus indicar uma cidade, alugamos uma casa, enviamos uma família para morar na casa, que também se torna o templo (com placa e tudo), apoiamos com ações de impacto, treinamentos e material. Nestes cinco anos foram quinze congregações iniciadas. Também elas não são somente nossas, são da Junta de Missões Nacionais, da Convenção Batista Piauiense, da Convenção Meio Norte do Brasil, da PIB de Vitória, da SIB do Plano Piloto, da Igreja Batista Emanuel, da PIB em Castelo do Piauí, da PIB de Campo Maior (PI), da Igreja Batista Jardim das Oliveiras (DF), da PIB de Gilbués (PI), da Igreja Batista Memorial de Timon (Ma), da Missão Internacional da Esperança (IMHOPE) e de muitos irmãos que contribuem para o sustento desta obra. Há congregações em que alguns batizados são membros de nossa igreja, e outros da igreja parceira.

Deus tem nos abençoado grandemente! Nunca deixamos de entregar o Plano Cooperativo e nunca deixamos de levantar as ofertas missionárias da denominação. Não fazemos isto porque temos dinheiro. Uma igreja com uma média de dízimos de quarenta mil reais não pode fazer missões confiada em recursos financeiros. Priorizamos a obra missionária porque entendemos que é a ordem de Deus para Sua igreja.

Nestes últimos cinco anos construímos 4 templos, reformamos outros dois, compramos 6 terrenos, ganhamos uma Van, mandamos fabricar um consultório dentário sobre rodas (um trailer odontológico), ganhamos 3 motos, estamos reformando o templo da sede e o centro de retiros da igreja. Iniciamos um projeto social e missionário para alcançar as crianças de 4 a 14 anos, a chamada janela 4/14. Hoje atendemos mais de 100 crianças em três de nossas congregações. Nosso alvo é implantar o projeto em todas as nossas congregações. Temos uma equipe de 9 missionários cuidando de 14 congregações, das quais 10 são no interior. Isto significa que algumas congregações já estão se multiplicando, abrindo outras congregações.

O que conselho que dou, dou a mim mesmo:

Não espere recursos para abrir igrejas.

Procure e espere uma determinação de Deus. Obedeça!

Viva a experiência de uma igreja de ministros de Deus que estão envolvidos em uma grande missão, e ministros envolvidos em uma grande missão não têm tempo para os negócios desta vida, apenas procuram agradar àquele que os arregimentou para a missão.

Saia para ganhar almas e compartilhe com a igreja e experiência.

Deixe os novos convertidos compartilharem com a igreja a experiência da salvação em Cristo.

Não tenha medo de avançar. Aquele que deixou toda a glória no céu e desceu à terra em uma missão de resgate não lhe deixará sem recursos e direção.

Quando estiver no conforto de seu templo, estudando ou pregando a Palavra, pense naqueles que não possuem templo, largados, como ovelhas errantes sem pastor, sem Bíblia, sem esperança, escravos do pecado e com destino à perdição eterna. É justo que se destinem à perdição sem ao menos serem avisados? Todo ser humano tem o direito de ouvir o evangelho. E, se Deus deixou toda a sua glória no céu, e experimentou todo tipo de sofrimento para salvar estas vidas, não há sofrimento grande demais para mim ou para você no cumprimento desta missão.

Pr Gilvan Barbosa

Fonte: Depoimento publicado na Revista “A Pátria para Cristo”, no. 264, p. 30-32

 

 

 

 

“EU TENHO UM SONHO”

Luther King

 

O mundo ocidental comemorou no último 28 de agosto o cinquentenário do discuros de Martin Luther King, mundialmente conhecido como “Eu tenho um sonho”. Luther King, pastor Batista, liderou 250.000 pessoas na Marcha para Washington, e no Memorial Lincoln proferiu seu mais famoso discurso. Neste eternizou a frase “eu tenho um sonho”. Disse: “Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade. Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no Estado de Mississipi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor da opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça. Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!”. Luther King foi movido por um sonho.

São os sonhos que movem as pessoas, e são estes mesmos sonhos que mudam a realidade. Os sonhadores morrem, passam, mas seus sonhos se eternizam.

Quando penso na igreja de Cristo reunida em um dado local, penso em pessoas movidas por sonhos que Deus lhes planta nos corações. Neste sentido eu também tenho um sonho.

Sonho com uma igreja que seja gente, não prédio ou coisas. Sendo gente ela priorizará cuidar uns dos outros, antes de cuidar de programas e eventos.

Sonho com uma igreja que tenha como alvo alcançar todas as pessoas, ricas e pobres, negras e brancas, cultas e incultas, sábias e ignorantes. Isto significa trabalhar com todas as classes e tipos de pessoas. Estaremos abertos para receber e amar o governador do Estado e o mendigo da praça, buscando deixar Deus fazer de todos estes um corpo, um povo Dele. Dentro desta igreja todos somos irmãos. Os que vivem à margem da sociedade não ficarão à margem da igreja.

Sonho com uma igreja cuja tarefa principal seja a pregação do evangelho e a edificação dos salvos. Nesta busca, estaremos olhando o bairro onde estamos, as cidades do Estado do Piauí, o Brasil e o mundo.

Sonho com uma igreja onde a pregação do evangelho será a todos os homens e ao homem todo. Buscaremos pregar e viver o evangelho integral, alcançando o espírito, as emoções, a vida social e familiar de cada pessoa. Aonde chegar nossa ação missionária, chegará uma visão de mudança total e completa do homem.

Sonho com uma igreja onde todos os crentes serão ministros de Deus. O pastor será o líder espiritual, mas não ministro de Deus sozinho, todos serão ministros de Deus. Cada membro da igreja estará envolvido no ministério, usando seus dons e profissões. As profissões dos membros desta igreja serão exercidas como ministério de Deus para abençoar e salvar vidas.

Sonho com uma igreja onde buscaremos o crescimento numérico, mas não adotaremos todo e qualquer meio ou programa para que a igreja cresça. Todos os programas da igreja serão exercidos pelo crivo da Palavra de Deus. Não faremos algo só porque uma igreja está fazendo e está dando certo. As práticas de outras igrejas não serão definidoras das nossas.

Sonho com uma igreja que seja cooperadora com a denominação em todos os aspectos possíveis. A cooperação não será medida apenas pelo aspecto financeiro, mas também pela participação e parcerias.

Sonho com uma igreja que busque parcerias com outras igrejas, associações, convenções, empresas e pessoas físicas para que o evangelho de Cristo alcance o Estado do Piauí e o mundo.

Sonho com uma igreja que tenha um culto alegre, vibrante, dinâmico, contextualizado e bíblico. Não cantaremos qualquer cântico, mas aqueles que reforcem o que cremos e exaltem o Senhor. Analisaremos todos os cânticos à luz da Bíblia, a Palavra de Deus.

Sonho com uma igreja que discipline em amor. A igreja é corpo e família de Deus. Como corpo e família precisa de disciplina. Temos que viver diferente do mundo. Mas, ninguém será disciplinado sem antes ser ajudado e apoiado. A exclusão será um recurso último, mas, mesmo este, terá o objetivo de restaurar, conduzir ao arrependimento e mudança de vida.

Sonho com uma igreja onde as questões financeiras serão tratadas como assuntos espirituais, não como simples planejamento financeiro e econômico. Não somos empresa, somos a igreja de Cristo.

Sonho com uma igreja que cuide da família como a base da igreja e da sociedade. Cada casamento feito pelo pastor será precedido de acompanhamento e aconselhamento. A orientação bíblica será o direcionamento para as relações familiares (marido e mulher, pais e filhos, filhos e filhos).

Estou tentando apresentar a Deus uma igreja assim. E você? Vem comigo neste sonho!

 Pr Gilvan Barbosa

P.S. Os tópicos deste texto – “sonho com uma igreja…” – são parte da carta encaminhada à Primeira Igreja Batista em Teresina, no dia 6 de setembro de 2008, quando recebi da mesma o convite para pastoreá-la. A igreja votou esta carta em assembléia e, desde então, caminhamos para tornar este sonho realidade.

IGREJA É GENTE

Igreja é gente

 

Nos últimos anos Deus tem nos abençoado de forma tremenda! Além de investirmos  arduamente na reforma do templo de nossa igreja (está ficando lindo!) para as comemorações do centenário, construímos o templo das Congregações em Hugo Napoleão e Nossa Senhor de Nazaré; reformamos o templo da Congregação em Caraúbas, estamos reformando em São Felix e construindo em Santa Cruz dos Milagres. Embora templos identifiquem igrejas, eles não são igreja. Igreja é gente.

Quando Jesus disse que edificaria a sua igreja (Mt 16.18), estava falando de gente, de pessoas. Quando a Bíblia diz que a igreja é o corpo de Cristo (I Co 12.27; Ef 4.12) também está falando de pessoas. São pessoas que são batizadas e passam a congregar. São pessoas que são feitas discípulos e discípulas de Cristo. O Pr Sócrates Oliveira pregou em nossa igreja dizendo que “igreja é feita de gente. Igreja é feita de gente que vem, que fica, que vai e que volta”. Prédio, móveis e coisas estarão em função de pessoas. As coisas são meios para salvar e edificar pessoas.

Ao ver uma irmã abrir seu lar para abrigar outros irmãos, que vindo para um projeto missionário encontraram dificuldade no retorno, vejo uma igreja. Vejo uma igreja quando me deparo com irmãos se mobilizando para cuidar de outro que está no hospital, levando outros a orarem, ligando em busca de alguém para fazer a cirurgia da enferma, e depois da cirurgia abrigando a convalescente até encaminhá-la de volta à sua casa. Também percebo uma igreja quando quatro adolescentes decidem regressar ao campo missionário para discipular os novos convertidos. Uma igreja é percebida quando você recebe uma mensagem da liderança da juventude dizendo que vinte e cinco inscrições do acampamento foram destinadas aos jovens das congregações carentes. Igreja é gente. Gente que sai de sua zona de conforto para elaborar e implementar um projeto denominado “sementinhas de Jesus”, com o propósito de cuidar de crianças em situação de risco. Também é gente que se mobiliza para comprar um trailer odontológico visando levar saúde bucal às populações carentes da periferia da Teresina e do interior do Estado. Foi por gente que Jesus morreu. E gente cuidando de gente, abraçando, chorando e rindo é que é a igreja de Cristo.

Como igreja é gente, ela é intrinsecamente imperfeita. Gente erra, gente falha, machuca, fere. Mas, a igreja é uma qualidade de gente diferente. A gente que é a igreja falha, machuca, fere, mas reconhece todos os seus erros e falhas e procura corrigi-los. Igreja não é gente que vive no erro e na desobediência. A igreja é uma gente imperfeita em busca da perfeição, uma gente em constante mudança e aperfeiçoamento. Enquanto a obra não terminar esta gente estará em constante transformação. Lembra a plaqueta colocada em momentos de reforma em prédios públicos? “Estamos em reforma. Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para servi-lo melhor”. Esta frase se aplica bem à igreja. O Senhor está sempre, sempre, sempre nos “reformando” para que possamos servir melhor…servir a pessoas…gente…que é e será a igreja…

Pr Gilvan Barbosa

IGREJA, O EQUÍVOCO

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Há um interesse exacerbado do homem em ser reconhecido como igreja. A religiosidade humana é tão forte que qualquer grupo que se reúne com fins religiosos se autodenomina de igreja. No contexto do cristianismo este é um equívoco tremendo.

Só para ilustrar o que frisei acima, as principais manchetes da mídia brasileira, especialmente a televisiva, há pouco tempo foram: 1. A morte do fundador (e seu filho) de uma “igreja” no interior paulista por um frequentador da respectiva “igreja”; 2. A prisão de três “pastores” de uma “igreja”, em Campo Grande (MS), por contrabando de armas pesadas, de uso exclusivo do exército. Em ambos os casos, as manchetes sempre trataram o assunto como de “igreja”. Confesso que isso me incomodou, pois demonstra um desconhecimento bíblico profundo da sociedade e daqueles que formam a opinião pública. Nos assuntos referidos não tínhamos e não temos igrejas envolvidas. Podemos até ter grupos religiosos, mas não igreja. Senão vejamos.

Embora a palavra ekklesia (igreja) fosse uma palavra comum na época de Jesus, ao utilizá-la ele acrescentou o pronome possessivo: “edificarei a minha igreja (ekklesia)” (Mt. 16.18). Igreja, portanto, é um grupo de pessoas vinculadas, ligadas, pertencentes a Cristo, fora disso não existe igreja. Esta premissa é por demais importante para o entendimento do que seja igreja. Não existe igreja que não pertença a Jesus, pode existir grupo religioso, mas não igreja.

O pertencer a Jesus leva o Novo Testamento a conceituar igreja como “corpo de Cristo” (I Co 12.27). A igreja, para o Novo Testamento, é Cristo em corpo atuando na terra. Da forma como Cristo tocou as pessoas, da forma como viveu, assim é a igreja. Algo diferente disso não pode ser igreja, não é igreja. O que a mídia tem chamado de “igreja” nas últimas semanas, e em muitas outras ocasiões, não é igreja.

Igreja são pessoas que pertencem a Cristo, que encarnaram o corpo de Cristo, portanto, agem e reagem como Cristo. O que passar desse conceito é grupo religioso, não igreja. “Igreja” armada não é igreja.  “Igreja” com práticas místicas, bebidas alucinógenas, não é igreja. “Igreja” que não persevera na doutrina dos apóstolos (At. 2.42) não é igreja. Nossa prática missiológica aponta para igreja no sentido bíblico: de Cristo e seu corpo.

Pr. Gilvan Barbosa Sobrinho

ONDE ESTÁ, Ó MORTE, A TUA VITÓRIA?

Túmulo vazio

 

No próximo domingo, 31/3, comemoraremos a Páscoa. A Páscoa é a festa judaica para lembrar a morte que “passou por cima” de suas casas, sem levar seus filhos, na noite da morte dos primogênitos do Egito. A festa lembra também a libertação da escravidão egípcia. A Páscoa cristã é a lembrança que a morte “passou por cima de nossas vidas”, pois “passamos da morte para a vida” (Jo 5.24), e também é a lembrança que fomos resgatados da escravidão do pecado (Rm 6.18), nosso Egito espiritual. Nossa Páscoa só é possível porque o “cordeiro de Deus” (Jo 1.29) foi imolado na cruz. Mas, a cruz não o deteve, Ele ressuscitou ao terceiro dia. A ressurreição foi Sua, e é a nossa, vitória sobre a morte. Foi por causa desta vitória que Paulo cantou: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Tragada foi a morte na vitória” (I Co 15.55,54).

 Este é um dia festivo, um dia de muita alegria, mas não deixa de ser um dia para inquietação e desafios. Como? Nós, os batistas brasileiros, estamos celebrando a Páscoa no mês de Missões Mundiais. Estamos orando, lendo e contribuindo para missões. Na última quarta-feira, 27/3, estávamos orando pela evangelização da Europa. A Europa que deu ao mundo grandes igrejas cristãs, que nos agraciou com a Reforma Protestante e o movimento moderno de missões, hoje jaz no secularismo e longe do cristianismo. Templos sendo transformados em museus. Onde outrora havia vida, hoje só há história. Vi a angústia de um de nossos missionários, em Portugal, em três anos de trabalho árduo, desejando chegar a 38 membros na igreja que pastoreia, e que tem um templo fabuloso. Como cantar “onde está, ó morte a tua vitória?”, se aqueles que fizeram deste cântico uma realidade para nós, hoje estão derrotados? Não podemos fazê-lo sem um misto de inquietação, aflição e oração.

 Mas, inquieta-me o coração pensar que a realidade da Europa hoje, pode ser nossa realidade amanhã. Corremos sério risco de nos tornarmos outra Europa. Por quê? Porque o evangelho que pregamos não é mais o evangelho da salvação, do arrependimento e da fé pessoal em Cristo. O evangelho que pregamos é um sincretismo de paganismo, comércio e religiosidade. Temos uma Páscoa sem o cordeiro de Deus, com coelho e ovos de chocolate. Temos uma Natal sem Jesus, mas com Papai Noel, renas e presentes. Temos pregações que não falam mais de mudança de vida, de arrependimento, de fidelidade e compromisso com Cristo. Temos púlpitos vazios de Deus! Temos cultos que são entretenimentos para uma sociedade vazia. Aquilo que chamávamos santo lugar, onde tínhamos um encontro com Deus, foi transformado em salão de teatro e de programa de auditório. Os joelhos dobrados em fervente oração e contrição foram substituídos pelos aplausos a uma minoria que representa um “evangelho” morto, sem poder para impactar e salvar. O encontro, que era com Deus, passou a ser apenas com pessoas, pessoas vazias, que vagam de templo em templo, de culto em culto, como aqueles que vagam de bar em bar, de festa em festa… vagam sem Deus e sem direção (Ef 2.12). A Reforma que impactou a Europa do século XVI precisa impactá-la novamente, mas precisa ocorrer no Brasil evangélico, enquanto é tempo, enquanto temos templos e não museus.

Pr Gilvan Barbosa

ATRAÇÃO FATAL

O canto da sereia

A lenda das sereias, seres mitológicos, metade mulher, metade peixe, diz que estas habitavam os rochedos entre a ilha de Capri e a costa da Itália. Elas eram lindas e seu canto, encantador. Eram tão lindas e cantavam com tanta doçura que atraíam os tripulantes dos navios que passavam por ali para que estes colidissem com os rochedos e afundassem. O Canto das sereias era uma atração fatal.

Na igreja de Tiatira o canto fatal provinha de uma mulher chamada Jezabel, que se dizia profetisa. Ela propunha aos membros um evangelho light, sem muitas exigências e sem confronto com os costumes sociais da época. Ela seduzia os crentes a se prostituírem e a comerem das coisas sacrificadas aos ídolos (Ap 2.20). Este tipo de ensino era um canto atrativo, mas o fim era fatal: “Eis que a lanço num leito de dores, e numa grande tribulação os que cometem adultério com ela, se não se arrependerem das obras dela; e ferirei de morte a seus filhos” (Ap 2.22,23). Assim como o canto das sereias levava os navios de encontros às rochas com a consequente morte de suas tripulações, o canto de Jezabel levava os crentes de Tiatira a experimentarem o juízo de Deus.

O mundo ao nosso redor é um “canto de sereia”. Somos atraídos por seus encantos e propostas. Tiago nos adverte: não sabeis que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). A palavra amizade, usada por Tiago, é “philia” no grego, que muitas vezes é traduzida por “amor” no Novo Testamento. O sentido do amor “philia” é de uma ligação emocional ou uma afeição. “Philia” é um tipo de amor onde existe um forte impulso emocional. A amizade com o mundo é um afeto, uma ligação emocional com o mundo. Não é uma afeição casual, mas um profundo e íntimo desejo de se envolver com o mundo. É uma queda de amor para o mundo e seus valores. “Philia”, neste texto, não é uma referência a uma queda, o ceder à tentação em dado momento, mas um estilo que vida que absorve a amizade, que nos faz enamorados, que nos leva a flertar com as coisas do mundo. Este flerte, este namoro com o mundo era o ensino de Jazabel em Tiatira.

Algumas indagações podem nos ajudar a avaliar nosso envolvimento com o mundo, nosso flerte com os valores desta sociedade: Quando oferecemos a Deus um culto de gratidão por um aniversário, formatura, casamento, etc, e depois, na recepção servimos bebida alcoólica, estamos querendo agradar a Deus ou ao mundo?  Quando frequentamos ambientes que sabemos serem de valores que ferem nossas crenças, o fazemos com o intuito de agradar a quem? Quando omitimos nossas crenças em situações que sabemos poderemos ter prejuízo financeiro ou social, nossa omissão tem que finalidade, nossa exaltação pessoal ou a exaltação do Senhor? Perguntas semelhantes poderão ajudar na avaliação de nossos compromissos, mas uma pode colocar limites e definir os rumos: “em meu lugar, o que faria Jesus?”

Tiago alerta que a amizade com o mundo é uma declaração de guerra a Deus. Quem assim o faz declara-se, constitui-se inimigo de Deus. O juízo de Deus sobre estes já está declarado: “Eis que a lanço num leito de dores, e numa grande tribulação os que cometem adultério com ela… e ferirei de morte a seus filhos” (Ap 2.22,23). Amor ao mundo e flerte com seus padrões, eis uma atração fatal!

Não contribua para a edificação de uma igreja que se encanta com o mundo!

Pr. Gilvan Barbosa Sobrinho

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